A larga maioria das sinalizações pelos centros de acção de saúde refere-se a situações de negligência, incluindo abandono. Zona da Grande Lisboa e Norte registam mais casos
Quase três mil crianças vítimas de maus tratos foram sinalizadas pelos Núcleos de Apoio a Crianças e Jovens em Risco em apenas seis meses. A grande maioria dos casos refere-se a negligência, incluindo o abandono, mas também há maus tratos físicos e psicológicos e situações de abuso sexual. Muitas das crianças sinalizadas eram alvo de mais do que um tipo de agressão.
Os dados foram apresentados ontem, Dia Mundial da Criança. Números que mostram uma realidade triste, quando se devia celebrar a alegria da chamada “idade da inocência”. No último semestre de 2009 foram registados 2815 casos de maus tratos sinalizados nos núcleos criados nos hospitais com atendimento pediátrico e nas unidades locais de saúde.
De acordo com o relatório intercalar da Comissão de Acompanhamento da Acção de Saúde para Crianças e Jovens em Risco, 72 por cento das situações sinalizadas referiam-se a negligência, 9 por cento a maus tratos físicos, 7 por cento abusos sexuais e 12 por cento a maus tratos psicológicos. Os números são semelhantes a registados em períodos anteriores, refere o relatório apresentado no Hospital Amadora-Sintra.
“Isto mostra a importância do problema dos maus tratos, a implicação que frequentemente tem na vida dos jovens e também a dimensão da questão. Os profissionais estão mais sensibilizados e articulados para detectar situações que antes passariam despercebidas. As situações de negligência estão a ser mais sinalizadas”, explicou ao 24horas Vasco Prazeres, coordenador da comissão.
Facto que vem assinalado no relatório, que destaca a “predominância acentuada de casos de negligência” por todo o País, com percentagens que variam entre os 62 por cento na Administração Regional de Saúde do Algarve e 77 por cento na do Norte. “As equipas estão mais acutilantes na detecção de sinais de risco e situações de maus tratos”, reforçou o responsável.
Mais casos registados em Lisboa e no Norte:
Dos casos identificados, 45 por cento foram acompanhados pelos núcleos, mas outros tantos acabaram por ser encaminhados para outras entidades, como a Comissão de Protecção de Menores ou para o Ministério Público e tribunais. Grande parte das sinalizações foi registada nas áreas de influência das Administrações de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e Norte.
“Os dados reflectem os locais onde há mais equipas a trabalhar no terreno. Esses dados estão mais ou menos em consonância com a avaliação feita em 2008 e no primeiro semestre de 2009″, referiu Vasco Prazeres, explicando que a maioria dos casos são sinalizados nos centros de saúde, “onde o volume de atendimento é maior e há mais núcleos”.
Os dados ontem apresentados podem ser uma franja da realidade. Dessa, só se espera ter um espelho mais completo em 2011 de uma aplicação informática que vai facilitar a recolha e o tratamento da informação. “Os núcleos irão gerar e gerir a informação epidemiológica do fenómeno, o tipo mais frequente de maus tratos, onde se registam mais”.
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