Nasci numa familia pobre, com graves problemas financeiros e desde cedo soube o que era sofrer.
Fui abandonado á nascença pela minha mãe, pois ela dizia não ter condições para me criar.
Mais tarde fui entregue ao meu pai e a uma mulher que dizia ser a companheira dele, e a partir dessa altura começou o inferno para mim.
Como todos nós sabemos, é normal que uma criança pequena faça o tal "chichi na cama"... mas o que é certo é que a minha "madrasta" não achava muita piada a isso...
Começou por me dar pontapés, atirava-me contra a parede, pisava-me quando eu estava caído no chão e, como se já não bastasse tudo isto, ainda me batia com a fivela do cinto no pescoço...
Quando ela saía de casa deixava-me fechado a sete chaves, no meio da escuridão com o objectivo de meter medo, mas o que ela não sabia é que ao fazer isso ainda eu ficava pior...
Não saía muitas vezes de casa, por isso não sabia bem o que era, por exemplo, um carro, uma árvore...
Cheguei a ser posto fora de casa em plena noite, tudo por causa do tal "chichi na cama"... e não passei muito bem a noite, pois estava bastante frio...
Até que um dia o meu inferno acabou, tudo graças a uma vizinha que se fartou de ver e ouvir os maus tratos e fez queixa na polícia...
O tribunal foi lá a casa, conjuntamente com a Segurança Social, e retiraram-me do inferno e levaram-me para o paraíso, uma família de acolhimento onde ainda permaneço.
Tudo parecia ter acalmado, até que um ano depois, eis que o meu pai e a tal mulher dele descobriram onde era a escola onde eu estava, escola primária na altura pois eu apenas tinha anos, e tentaram ir lá para me raptarem, mas sem sucesso, pois na altura eu consegui fugir pela porta da cozinha da escola...
Mais tarde, conseguiram também descobrir onde eu estava a morar e foram lá também, ainda com o mesmo objectivo mas em minha casa ainda tiveram menos sorte... O meu pai ainda levou um folheto com brinquedos para me iludir com promessas mas, mesmo pequeno, já não fui na cantiga dele.
Uns anos mais tarde, o tribunal deu a oportunidade ao meu pai de poder ficar comigo, mas para isso ele tinha de deixar a mulher. O tribunal fez-lhe uma proposta irrecusável: ou ficava comigo e deixava a mulher, ou ficava com a mulher e nunca mais iria ver o filho. Em pleno tribunal eu fiquei á espera que ele desse uma resposta, até que ele respondeu aquilo que eu já estava á espera: "fico com a minha mulher". A partir desse momento ele ficou proibido de me ver e de se aproximar de mim.
Passados alguns anos, a minha família de acolhimento foi pela última vez a tribunal para decidir se queria continuar a tomar conta de mim ou não, resposta á qual a minha familia de acolhimento aceitou e aqui estou desde essa altura.
Estou feliz com quem estou e sei que o meu inferno já lá vai. Eu sei o que sofrem todas essas crianças pelo mundo fora, pois eu também já sofri isso na pele... Eu cheguei ao momento de pensar que eu já não saíria daquela casa vivo, pois a violência era de tal maneira grande que eu já pensava de tudo...
Quero apenas deixar aqui um agradecimento á vizinha que fez queixa na polícia, esteja onde estiver, e se ainda for viva, pois eu nunca mais tive contacto com essa senhora, um muito obrigado por me salvar do inferno!
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